
Estacionamento da FIERGS.
ESTACIONAMENTO.
Eu devia ter desconfiado.
Há exatos dez anos, o show de Eric Clapton em Porto Alegre inaugurou, com estilo, a lista de grandes shows da minha vida. Claro, muita coisa mudou desde lá. O autoproclamado mundo ocidental recém começava a sua Guerra ao Terror, o PT ainda era oposição, e o Grêmio era o time hegemônico no RS. Mudou também Eric Clapton; à época um cinqüentão, o homem que visitou Porto Alegre ontem, lembremos, já é um idoso. É, slowhand já tem 66 anos.
Mesmo assim, por tudo que representou na música, pela qualidade das suas apresentações, e principalmente pelo que – sejamos justos – ainda toca, estava plenamente justificada a expectativa pelo seu show. O público, contudo, não saiu completamente satisfeito, principalmente por quatro razões:
1) O preço: R$ 180 pelo ingresso mais barato autoriza o público a exigir, mesmo em um show internacional, um produto de qualidade.
2) O lugar: O estacionamento da FIERGS é um estacionamento, não uma casa de shows. "Gigantinho, Beira-Rio e Olímpico também não são", poderiam argumentar. De fato, até o Pepsi on Stage sofre com problemas de acústica. Mas todos esses lugares são INFINITAMENTE superiores, em estrutura e acústica, a um estacionamento. Logística também foi um problema. Para quem não sabe, a FIERGS fica mais ou menos perto de Passo Fundo. Não foram poucos os que após o show saíram vagando na Assis Brasil à procura de um táxi (o que Porto Alegre decididamente tem em número insuficiente).
3) O repertório: Das três primeiras músicas, Hoochie Coochie Man (que não é exatamente um hit) era a mais conhecida. Faltou mesclar sucessos no início do show para chamar o público. Outro problema reside em uma declaração dada por Clapton há alguns anos atrás: "sou, fui e sempre serei um guitarrista de Blues". Por mais bonita que ela seja, nesta frase está contida uma certa negação ao seu passado com o Cream, o power fucking trio inglês que compunha com os fabulosos Ginger Baker e Jack Bruce, no qual definitivamente viveu o seu melhor momento. E, para levantar o público desanimado, os maiores sucessos do Cream (notadamente, White Room, Strange Brew e Sunshine of Your Love) seriam perfeitos. Fica a impressão que Clapton fez um repertório para tocar em um pub.
4) O volume: Parte culpa de Clapton, parte de seus engenheiros de som. Faltou volume, e Rock é volume. A banda, aliás, para esse tipo de show, não era das maiores. As guitarras ficaram a cargo apenas de Clapton. Alguém dirá "E precisa mais?". Precisa. Para um show dessa envergadura, músicos de apoio são mais do que necessários. Faltou um outro guitarrista para dar o peso que faltou ao som da banda. Para quem assistiu ao show da pista, a experiência equivaleu a assistir a um DVD com som baixo e cerveja cara. Lembrando: Os Stones, exemplo máximo de longevidade no Rock'n'Roll, mesmo tendo nas guitarras ninguém menos que Keith Richards e o outro aquele, leva em seus shows um outro carinha que fica com um violão, lá no fundo, fazendo uma base e preenchendo o som.
Não foi, de forma alguma, um show ruim. Clapton é Clapton. A cada palhetada é possível perceber como ele influenciou e influencia guitarristas até hoje. Em Crossroads, música do bis, fica claro como Clapton foi importante, por exemplo, para John Mayer, que também gravou a música. Principalmente na maneira de solar.
Eric Clapton vem da melhor escola de Rock do mundo, a inglesa. Apesar daquele BAITA álbum acústico, e a despeito de suas influências, talvez falte a Clapton admitir que ele não é um negro americano dos anos 1930.